Mentolog

Opiniões


O problema da abstração

Um dos grandes problemas na discussão política e econômica atualmente é a abstração. Ancaps são muito abstratos. eles defendem que o ideal seria se o governo não existisse, pois as pessoas fazem contratos entre si e é o que basta. Contanto que não se tenha violência (não ferir o PNA), tudo é permitido pois viria de um contrato que simboliza que os envolvidos querem aquilo.

A principio isso parece fazer sentido, e faz, porém o problema é que isso não ajuda em nada, não explica nada, justamente por explicar explicar tudo, por ser muito abstrato.

Isso porque a partir da estrutura mencionada, tudo é possível. é possível fazer contratos de governos, é possível replicar tudo que existe hoje.

E o outro problema: isso não diz nada sobre a nossa situação atual. Se deveriamos privatizar as coisas, se deveriamos respeitar a propriedade privada, se deveriamos empreender ou não. Isso porque a história da humanidade nunca ocorreu por esses meios de livre contratos e não violência. A história humana é marcada por guerras, violência e sobrevivência do mais forte. E basta ter um momento disso para toda a estrutura lógica abstrata desaparecer.

É impossível julgar toda a história humana com base nos critérios de aplicação de violação do PNA e retornar ao mundo “justo”. Então toda a teoria se torna inútil.

Ninguém diria que uma sociedade onde todas as fontes de água foram violentamente tomadas por um grupo de pessoas é justa se, a partir de agora, todos respeitarem sua propriedade privada e ninguém mais usar violência só livres contratos entre os agentes.

Mesmo que se admita a impossibiliadade de julgar toda a história humana, e se faça uma divisão igualitária das coisas e, a partir daí, se aplique a teoria, ainda voltaria para o ponto de que tudo pode ser feito usando essa teoria, até as posições aparentemente mais contraditórias.

Isso mostra que os conceitos muito gerais são verdadeiros até em situações consideradas erradas (as pessoas ainda estariam se beneficiando mutuamente pelas trocas), e ao mesmo tempo se referem a situações impossíveis (só se julgassemos a história humana inteira poderiamos voltar a uma situação “livre”).

Se é falado sobre um humano abstrato. Sobre qualidades que um humano tem independente do tempo e do espaço em que ele se localiza, coisas como “os homens agem” ou “humanos buscam um grau maior de satisfação”. Ao invés de falar das possibilidades humanas no agora, como, se o humano vive numa cidade ou no interior, se ele tem dinheiro para fazer algo algo ou não.

Deduzir toda a história humana a partir das capacidades humanas…

Portanto não devemos dizer que eles estão errados, apenas que são inúteis. não respondem nada, não explicam nada, não ajudam em nada. Sim, está certo que pessoas agem, que as pessoas buscam o melhor para elas, que vendas e compras são escolhas livres e beneficiam os dois lados. Isso ainda assim não diz nada sobre o que devemos fazer. Devemos analisar as estruturas específicas que essas concepções gerais fornecem.

Religião

E não é só a economia que enfrenta esse problema. As religiões também operam pela mesma lógica: toda ação pode ser justificada dentro de uma religião pois os dogmas são muito abstratos. E isso não se trata de interpretações erradas, mesmo que sempre o lado oposto vai dizer isso, pois interpretações erradas existem e devem ser combatidas, mas o problema das religiões é sim que a própria doutrina permite tudo que é feito com ela. Por exemplo, “seguir o Cristo”, “fazer o bem”, pode significar desde a cuidar dos pobres à matar alguém, se a pessoa achar que matar alguém é fazer o bem, e a pessoa morta é o mal. Mas e o mandamento “Não matarás” não seria específico? até seria, mas ninguem o segue na prática justificando que a interpretação correta é “não matarás sem justificativa” o que já torna tudo abstrato novamente. Se fossemos seguir a risca isso, não poderiamos matar animais para comer, não poderiamos matar pessoas que matam outras para legítima defesa, etc.

Produção de software

A área da programação de computadores é outra área afetada. Embora a computação em si pareça abstrata pois são linguagens simples que fazem os programas mais complexos imagináveis, porém não devemos esquecer que os programas são específicos visando atender a problemas específicos, ninguém fica defendendo linguagem de programação (), mas sim os programas ou estruturas específicas. O problema está quando começam a ser feitos programas, teorias de engenharia de software, muito gerais. Ao invés de tornar mais específico, o programa acaba se tornando quase uma linguagem de programação, cheio de botões, inputs e coisas que você não faz ideia de para que servem ou como funcionam, tudo para atender a todos os casos de uso possíveis. Esse mal acomete muito profundamente a engenharia de software, se pensa o software como capaz de qualquer coisa. Faz a coleta de requisitos separando o “O quê” do “como”, os diagramas UML excluem os frameworks e tecnologias usadas, há uma separação entre as tecnologias e a teoria científica de produção de software devido a talvez uma pretensão de ser independente da aplicação.

O jeito certo de abstrair

Pode-se concluir que devemos só analisar casos particulares, instâncias e não classes, mas isso está errado também pois vai cair num empiricismo simplista que só explica o que já é obvio ou assume que o que aconteceu hoje vai continuar acontecendo amanhã sem entender o por que de nada. Cai no mesmo erro mas por motivos opostos: explica só o momento e não serve para nada além dele.

Devemos partir de relações específicas e encontrar a teoria “abstrata” que as explique, indique para onde vai e o que pode-se fazer para atingir os objetivos propostos.